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Texto Pesquisa 17 Branca Dias: bíblia na rua, torá em casa Sobre Branca Dias, muito já se tem escrito, porém um ângulo da sua vida ainda está por ser detidamente estudado: o da sua personalidade e o que ela representou como figura humana no seio da sua família e da sociedade daquela época. Na qualidade de esposa, os registros nos levam a considerá-la uma mulher dedicada e que amava profundamente o marido, Diogo Fernandes. Ainda em Portugal, a mãe de Branca inimizou-se com ela porque não aprovava o casamento. Afrontando a mãe, Branca casou com Diogo e da união resultaram oito filhas e três filhos. Ele veio sozinho para o Brasil e deixou por um tempo a família em Portugal. Nesse período, teria mantido contatos sexuais com uma criada, do que resultaria o nascimento de uma filha de nome Briolanja. Em Pernambuco, anos depois, Branca, mais uma vez, daria provas do afeto pelo marido, mantendo em sua casa de Olinda a filha bastarda de Diogo. O casal era proprietário do Engenho Camaragibe, o qual seria parcialmente destruído pelos indígenas no melhor safrejar das canas. Mais uma vez, Branca daria provas de sua obstinada dedicação, garantindo a subsistência da família, ao abrir na sua casa uma escola de coser e lavrar, para moças. Quando Diogo Fernandes faleceu , entre 1563 e 1567, Branca – numa demonstração de vitalidade e forte personalidade – assumiu as rédeas da administração do engenho e nele permaneceu por mais de 20 anos. Como mãe, o pouco que se sabe a respeito de Branca Dias já nos permite delinear o perfil de seu caráter. É sabido que Branca induzia suas filhas a casarem-se com os melhores ‘partidos’, os ‘da governança da terra’. Deu-lhes provavelmente o melhor do seu carinho, sem prejuízo da autoridade dominante de sua personalidade. Entre os filhos, por exemplo, havia dois problemáticos: Manuel Afonso, que nascera sem os braços e Brites, que possuía problemas mentais. Se, por um lado, deve-se imaginar o quão penoso para uma mãe seria o educar de um filho nessas condições, por outro, também será lícito se aferir o quanto de paciência dedicou Branca a ele, ensinando-o diligentemente a ler e a escrever com os pés. Já Brites, provavelmente para soerguer seu amor próprio, era designada por Branca para ser a guardiã do torá, que servia às reuniões secretas dos fiéis, quando faziam “esnoga” nos fundos das casas aos sábados. Por vezes, toda via, Branca Dias perdia a paciência com Brites e, embora raramente, chamava-se à atenção rispidamente. No ativismo religioso, Branca Dias se destaca sobremaneira, não só na organização de sua ‘sinagoga’ clandestina em Olinda, como no preparo das festas religiosas maiores no seu engenho de Camaragibe. Assim foi Branca Dias. Uma figura humana repleta de dignidade, obstinação e fidelidade à fé de seus ancestrais. O cerne sólido de uma família bem construída e que se tornaria, por sua numerosa descendência, a copa da árvore genealógica de grande parte das mais tradicionais famílias de Pernambuco e do Nordeste. Em nenhum registro sobre a nossa personagem se alude ao seu tipo físico. No meu imaginário, ela representa o que de mais belo e puro se pode imputar a uma mulher. *José Ribemboim é membro da Diretoria do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco e autor do livro Senhores de Engenho Judeus em Pernambuco Colonial. por JOSÉ ALEXANDRE RIBEMBOIM Fonte: JC ONLINE - 06.12.2001 |
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