Receberam do donatário da capitania de Pernambuco, Duarte Coelho, as terras onde viriam a instalar o Engenho Camaragibe em 1542, os cristãos-novos Diogo Fernandes, Pedro Alvares Madeira e, mais tarde, a mulher de Diogo Fernandes Branca Dias, que haviam sofrido processo da Inquisição em Portugal. No Engenho Camaragibe, realizavam-se celebrações judaicas como o Iom Kipur e a Festa das Cabanas (Sucot). Nesses dias, os cristãos-novos podiam ficar longe dos olhares curiosos e revelar a sua verdadeira fé. O imponente casarão colonial que domina a paisagem à beira da estrada que vai para Aldeia, em Camaragibe, não guarda apenas lembranças dos áureos tempos da cana-de-açúcar. Ali, numa casa de casta religiosidade católica e hoje repleta de fotografias do Papa João Paulo II, funcionou uma sinagoga durante o período holandês. Mesmo antes de Nassau, o casarão ainda abrigou diversas reuniões secretas. Conta-se que o Engenho Camaragibe recebia, durante “as luas novas de agosto”, diversas carroças enfeitadas com ramos de árvores trazendo judeus para celebrar o Iom Kipur, o Dia do Perdão, uma das mais importantes festas da comunidade. “A maioria desses judeus vinha de Olinda até Camaragibe, enfrentando uma longa jornada para realizar a festa distante dos olhares curiosos”, diz o historiador e pesquisador sobre a vida judaica em Pernambuco, José Alexandre Ribemboim, do Instituto Arqueológico.
O Engenho Camaragibe havia sido doado a Diogo Fernandes (marido de Branca Dias) e a Pedro Álvares Madeira, ambos tidos entre os pioneiros na indústria açucareira. Diogo e Pedro Álvares, cristãos-novos posteriormente acusados de práticas judaizantes, batizaram o engenho de Santiago (de São Tiago), talvez para imprimir mais ‘cristianismo’ ao local e afastar possíveis comentários dos católicos.
Hoje, o Engenho Camaragibe é de propriedade de Maria Amazonas MacDowell, uma fiel que ostenta títulos abençoados pela autoridade máxima católica, o Papa. Sua filha, Maria Antônia, conta que, no atual local da capela (erguida dentro do casarão), já foram encontrados restos de objetos e, certa vez, cinzas. “Uma empregada da casa achou uma caixa com as cinzas e avisou que havia ‘um pozinho branco’ embaixo do piso da capela”, conta Maria Antônia. “Dizem que os escravos gostavam de trabalhar aqui durante o tempo em que o engenho era administrado pelos judeus, pois não precisavam trabalhar aos sábados”, comenta Antônia. Como o domingo era o dia do descanso cristão, os donos do engenho também preferiam guardá-lo. Assim, os escravos ficavam dois dias sem trabalho.
De fato, o Camaragibe costumava receber aos sábados membros da comunidade judaica
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Antiga estrutura do engenho
Engenho Camaragibe
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De fato, o Camaragibe costumava receber aos sábados membros da comunidade judaica, que se reuniam ali para descansar. Foram justamente os tais descansos aos sábados (o shabbat, dia do repouso judeu) que despertaram a atenção dos moradores do entorno. Para convocar secretamente a comunidade, um judeu (provavelmente o calceteiro Jorge Dias de Caja) saía pelas ruas de Olinda com uma atadura amarrada no pé ou espada na cintura. O livro Senhores de Engenho: Judeus em Pernambuco Colonial, de Ribemboim, mostra que, além do Camaragibe, outro engenho, o São Martinho (já desativado), também abrigava uma sinagoga. Segundo denúncias do padre Francisco Doutel, vigário de São Lourenço (1591), ela teria funcionado antes de 1550. A comprovação da existência de outras sinagogas depende de pesquisas de campo, que estão nos planos dos pesquisadores. “Hoje, estamos realizando investigações em documentos históricos. Mas é fato que aquela área era povoada por sinagogas”, diz Tânia Kaufman. (F.M.)